
Exposição pensada e desejada em vida, Perpétua Transparência é a primeira iniciativa que presta homenagem ao artista depois do seu desaparecimento precoce.
A exposição constituí um momento de aferição vital sobre um percurso que aqui se sublinha na sua exemplar e edificante coerência: reunindo trabalhos de 1977 a 2022, ela confirma uma das presenças mais singulares no panorama da pintura portuguesa contemporânea.
Não é este ainda o momento para apresentar uma retrospetiva abrangente sobre um percurso criativo denso e profícuo. Ao longo de cinquenta anos o artista criou sempre com o mesmo entusiasmo e com a preocupação maior de exaltar a primordialidade da pintura enquanto veículo de uma compreensão alargada do mundo.
Se nos desenhos dos anos setenta o gesto se afirma com uma clareza compositiva e rítmica, tais caraterísticas percorrerão uma obra que elege a aproximação à tradição pictórica e caligráfica oriental e uma reinterpretação do território da abstração moderna como campo de aprofundamento de um pensamento plástico verdadeiramente idiossincrático.
Perpétua Transparência é uma exposição que privilegia um segmento muito particular da obra deste artista: predominam o preto e o branco, numa afirmação da essencialidade possível ancorada na máxima expressividade. Tal acontece tanto nos pequenos formatos, como nos trabalhos de escala grandiosa. O domínio de aspetos compositivos é tão complexo num caso como no outro: este movimento de aproximação e afastamento obriga o espetador a receções diferenciadas, ainda que sempre desafiantes para o olhar e subsequente interpretação de um posicionamento na arte que se erige enquanto realidade em si mesma.
Duas exceções, em obras de 2022, marcam este percurso expositivo: uma série de desenhos realizados para servirem de base a serigrafias para a Casa da Arquitetura em Matosinhos e a última tela, de grandes dimensões, que Francisco Laranjo mantinha no atelier.
Nesta, confirma-se a maestria no uso da transparência para a criação de um espaço ambíguo e palpitante onde as formas parecem ganhar vida e espessura existencial.
Porque a pintura, neste autor, sempre foi entendida como contingência alargada na procura de uma reverberação da vida, nas suas circunstâncias harmónicas ou na estridência do insuportável.
Francisco Laranjo sabia que a amizade era o cimento maior para ultrapassar todos os desafios de um contexto civilizacional extremamente complexo. A sua amizade, tal como a sua pintura, assentava num princípio de transparência exemplar. E a sua pintura sempre foi, em última análise, uma dádiva de amizade para a perpetuidade do futuro.
Curador: Miguel von Hafe Pérez
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Francisco Laranjo, Lamego, Portugal, 1955–2022. Professor Emérito, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Expôs individual e colectivamente em galerias e museus em Portugal e em vários continentes desde 1978, tendo sido conferencista em instituições tais como a École nationale supérieure des Beaux-Arts (França), Winthrop University (EUA), Ottawa University e Alberta College of Art and Design (Canadá), Marmara University (Turquia), Sheffield Hallam University (Reino Unido), Universidade de São Paulo (Brasil), Facultad de Bellas Artes – Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha), National Academy of Art Sofia (Bulgaria), Dresden Academy of Fine Arts (Alemanha), entre outras. Está representado nas colecções da Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea (Portugal), Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal), Museu de Arte de Porto Alegre (Brasil), Museu de Arte Contemporânea KNU (Coreia do Sul), Museu ASP (Polónia), Museu Amadeo de Souza Cardoso (Portugal), Colecção do Ministério das Finanças (Portugal), Fundação Portuguesa das Comunicações (Portugal), Colecção Benetton (Espanha), Institute of Contemporary Arts Kunsan (Coreia do Sul), Museu de Tomar (Portugal), entre outros. Medalha de Mérito, Grau Ouro, Município do Porto, 2009; Medalha de Mérito, Grau Ouro e Prémio de Mérito Cultural, Município de Lamego, 2013; agraciado como Comendador da Ordem da Instrução Pública pelo Presidente da República Portuguesa, 2015. www.franciscolaranjo.com
